-->

Creepy Pasta - A Quinta Alice

|| ||



Eu estava no computador, lendo sobre casos macabros. Entenda, sempre fui fissurada em casos estranhos e sinistros. Aquele que me foi passado por um amigo me exerceu especial fascínio, até porque o lindo Vocaloid tinha gravado uma música sobre. Certo, não foi declaradamente sobre, mas qualquer um que já tivesse lido o caso conseguiria perceber que a música TINHA SIM ligação com o caso.
.
Ah! E quantas vezes eu escutei O Sacrifício Humano de Alice?
.
Aquela Creepypasta não saía da minha mente. Quer dizer, a música era viciante, de fato. Ainda mais aliada à Vocaloid e a um caso de Serial Killer.
.
Permita-me contar sobre o caso, senão não haveria motivos de eu estar escrevendo isso. Esse caso é chamado de “O Caso Alice”, e aconteceu no Japão, de 1999 à 2005. Foram uma série de cinco assassinatos que nada tinham a ver entre si a não ser uma carta de baralho encontrada com cada um dos corpos. Em cada uma das cartas o nome “Alice” podia ser lido.
.
A primeira Alice (Sasaki Megumi) era uma dona de restaurante que tinha uma personalidade ferina e que gostava muito de festas. Um dia, quando saiu de uma dessas festas, resolveu ir à pé para casa, já que estava bêbada, e não querida dirigir. Negando as caronas que lhe foram oferecidas, a primeira Alice partiu, pra nunca chegar em casa. Na manhã seguinte à festa, um casal ia passando por um bosque que ficava a um quilômetro da casa de Megumi quando encontrou uma trilha de sangue. O casal seguiu a trilha e encontrou o corpo da primeira Alice esquartejado e pendurado em árvores. Não havia mais pistas no local do crime, a não ser um Valete de Espadas enfiado na boca de Megumi, com a palavra “Alice” escrita.
.
A música, dublada por Meiko, fala assim da primeira Alice:
.
A primeira Alice era uma amazona Vermelha
Segurando em mãos uma espada no País das Maravilhas
Cortando Tudo em seu caminho
Ela era acompanhada por um rastro vermelho.
Essa Alice foi profundamente pelos bosques
Foi capturada por um fugitivo procurado.
Se não fosse pelo rastro vermelho que ela fez

Ninguém pensaria que ela sequer existiu.

.
A segunda Alice (Yamane Akio), era um vocalista de uma banda pouco famosa, e uma pessoa tranquila. Desapareceu de seu apartamento depois de um ensaio da banda. As câmeras de segurança haviam filmado uma figura encapuzada entrando por uma porta lateral e saindo um tempo depois com um saco de lixo em formato estranho. Na semana seguinte, o dono do bar onde a banda costumava tocar abriu o bar e encontrou o corpo de Akio jogado sobre a mesa, com as cordas vocais arrancadas e um buraco de tiro na cabeça. Sua carta era um Rei de Ouros, com a palavra “Alice” escrita, e foi colocada em suas mãos, junto com suas cordas vocais.
.
A música, dublada por Kaito, diz assim:
.
A segunda Alice era um frágil azul.
Ele cantou para o mundo no País das Maravilhas
Enchendo regiões com tantas notas falsas criadas
Aquilo era um louco mundo azul.
Essa nova Alice era como uma rosa
Ele foi baleado e morto por um homem louco
Isso deixou a rosa florescer, triste e vermelha
O que era amado agora foi esquecido.

.
A terceira Alice (Kei Sakura), era uma adolescente muito querida por todos, com sonhos normais de adolescente (faculdade e essas coisas), quando foi seqüestrada. Seu corpo foi encontrado em uma cova rasa, marcada com a carta “Alice” dela, uma Rainha de Paus. Sakura foi mutilada, os olhos arrancados, a pele esfolada, a boca cortada. Uma coroa costurada à sua cabeça, e julgam que isso foi feito quando ela ainda estava viva.
.
E a música, dublada pela DIVA Hatsune Miku?
.
A terceira Alice era uma pequena verde
Muito amada e querida no País das Maravilhas.
Ela enfeitiçou pessoas com cada gesto e frase

E criou um estranho país verde.
Essa nova Alice era a rainha do país
Levada embora por um estranho sonho distorcido
Ela tinha medo de perder para a morte
Ela queria para sempre mandar em seu mundo.

.
A quarta Alice na verdade são duas pessoas, dois irmãos (Oshiro Hayato e Hina). A irmã mais velha, Hina, era muito teimosa. Seu irmão mais novo era muito inteligente, e pulara até uma série na escola. Foram encontrados mortos em razão de uma injeção letal em suas camas. A janela do quarto estava aberta, logo o assassino poderia ter entrado por ali silenciosamente, dado a injeção nas crianças adormecidas e então saído. Cada criança tinha um Às de copas que, colocados lado a lado, formavam a palavra “Alice”.
.
Finalmente, a música diz o seguinte, sobre a quarta Alice, dublada por Rin e Len:
.
Enquanto isso,duas crianças chegaram ao bosque.
Tiveram uma festa do chá sob as roseiras
O convite do castelo para eles era
Um naipe de coração
A quarta Alice eram dois irmãos gêmeos
A curiosidade deles no país das maravilhas…
Atravessaram milhares de portas
Chegando não muito tarde à um barco amarelo.
A rebelde irmã mais velha
E o inteligente irmão mais novo
Pensaram que eram os únicos no País das Maravilhas de Alice…
(E então alguém os mata no vídeo)
Eles nunca acordaram do seu sono profundo
Para sempre eles caminham no País das Maravilhas.

.
E assim fez-se o Caso Alice e a música Alice do Sacrifício Humano, muito embora alguns traduzam como “O Sacrifício Humano de Alice”.
.
Alice do Sacrifício Humano soa mais macabro, ao meu ver.
.
Bom, você pode estar se perguntando como essa história terminou. O assassino foi pego?
.
Duas coisas para você lidar com: o assassino nunca foi pego vivo, e… A história não terminou.
.
Bom, eles pegaram um cara chamado Suzuki Yuuto, um mendigo com problemas mentais que alegava não poder se lembrar onde estava na data dos assassinatos e que, coincidentemente, usava o casaco que pertencia à segunda Alice (o cantor, lembra?). A mancha de sangue que havia na manga realmente pertencia à segunda Alice, de acordo com o DNA. O mendigo disse que um demônio negro sem rosto lhe havia dado o casaco (opa, lembra da figura encapuzada que saiu do apartamento?). O mendigo foi liberado quando o abrigo de sem-teto disse que Yuuto ficara por lá na noite do assassinato da terceira Alice. O abrigo ficava muito longe da casa de Sakura para que o mendigo cometesse o crime e retornasse para o abrigo sem ser notado.
.
É. O mendigo realmente não era o assassino. Eu sou a prova disso.
.
Faziam 7 anos desde o último assassinato. Não me pergunte por que tanto tempo se passou, eu mesma não saberia dizer.
.
Meu nome? Yume. Tamashiido, Yume. Curiosamente, sou descendente de japoneses, como você mesmo pode verificar.
.
Curiosamente, meu nome é “sonho”. Por sorte, ninguém sabe aqui onde eu moro.
.
Tive grande afinidade com esse caso, desde que li um pouco sobre. Na verdade, a música me viciou, o caso me foi fascinante, e, bem… Um dia ainda irei voltar ao Japão, por certo. Meus pais vieram de lá quando eu tinha 11 anos. Um lance de trabalho do meu pai e tal…
.
O que é estranho, visto que meu pai era promotor no Japão e tals, então ele teria de estudar novamente pra poder atuar aqui…
.
Mas isso não vem ao caso.
.
Dois fatos, no caso, me chamaram atenção: as imagens na câmera, mostrando um vulto encapuzado saindo do prédio e;
.
A declaração do mendigo de que “um demônio negro sem rosto” lhe havia dado o casaco da terceira Alice.
.
Acreditei piamente de que o que aconteceu no Caso Alice não foi humano. Como alguém poderia ter coragem de trucidar pessoas, semelhantes, dessa forma?
.
Ah, como eu estava enganada…
.
Minha mãe me mandou dormir depois da décima vez que eu estava ouvindo Hitobashiro Arisu, O Sacrifício Humano de Alice ou, como eu prefiro, Alice do Sacrifício Humano. Eu levantei contrafeita. No auge dos meus 16 anos, tinha vontade de responder que eu era grande o suficiente pra ficar acordada além das 23 horas, mas não podia responder meus pais por questão de educação.
.
Rumei em silêncio para o meu quarto, após desligar o computador. Ajeitei-me e logo estava na cama. As luzes da casa não tardaram a serem apagadas, e a casa mergulhou naquele silêncio da noite.
.
A música continuava tocando em minha mente. E continuava, e continuava…
.
A luz do meu quarto se acendeu de repente. Pisquei por um instante, e levei a mão à frente dos olhos, virando-me para a porta. Meu pai estava parado lá.
.
–Então você andou lendo sobre o Caso Alice? – Ele me pediu, se aproximando. Dei-lhe um espaço na cama, e ele se sentou.
.
–É… Mas sabe, é uma lenda urbana. Muito louco pra ser verdade.
.
–Eu fui o responsável pela investigação do Caso Alice, quando aquele rapaz, Akio Yamane, foi morto. E depois a menina e as crianças Oshiro. A mãe deles se matou…
.
–Isso… É… Sério?! Achei que fosse só uma creepypasta e…
.
–Aconteceu. – Meu pai me cortou, encarando-me seriamente. – Yume, você tem de parar de pesquisar sobre isso. – Aquilo me atordoou. Como assim, parar de pesquisar? – Foi um caso sério e horrível. Não quero você metida com isso. – Ele se ergueu, e rumou para a porta. Parou lá e se virou, me encarando. Seus olhos refletiram a luz do corredor e brilharam de forma medonha – Afinal, a música termina com “Quem é a próxima Alice?”, não é? – A porta se fechou suavemente.
.
Ele estava me ameaçando, ou blefando para que eu parasse de pesquisar sobre o assunto?
.
No dia seguinte encontrei mais algumas coisas sobre o fato, mas tudo estava repetido e vago. Aquilo poderia realmente ter acontecido?
.
Deixei “de molho”, por ora, porque se alguém sabia sobre o fato, era meu pai, e ele não iria me contar. Mas havia “algo” que podia saber tanto quanto ele:
.
Seu computador.
.
A oportunidade perfeita apresentou-se para mim em um sábado de sol. O calor era infernal, e ficar dentro de casa era quase impossível. Minha mãe estava sentada sob o guarda sol, e meu pai bebia um drink à beira da piscina. Logo, eu estava sozinha “dentro de casa”. Observei por um instante os barulhos lá fora e saí do meu quarto, rumando para o quarto de meus pais, onde o notebook de meu pai estava fechado sobre a mesinha de cabeceira de sua cama. Abri-o, e a tela de login foi exibida. Diabos!
.
Bom, não podia ser algo tão difícil assim, certo? Meu pai não era exatamente a pessoa mais criativa do mundo. Tentei sua data de aniversário.
.
Senha errada.
.
Tentei a data de aniversário de minha mãe, senha errada. Minha data de aniversário, senha errada, a data do casamento deles, senha errada. Procurei a pergunta chave. E aquilo me pegou de surpresa.
.
A pergunta chave era “Caso”.
.
Digitei “Alice”. O Desktop foi exibido. Bem, tudo bem, então…
.
O desktop do meu pai era estupidamente organizado. Isso é um pouco assustador, porque em geral o desktop das pessoas não é organizado, mas o do meu pai era. Tudo estava catalogado em pastas. Acessei uma delas pelo touch screen do notebook. Tinha fotos de família. Fechei-a e vasculhei novamente o desktop. Acessei os Documentos e li os títulos das páginas. Havia uma escrito “sigiloso”. Abri-a, mas a pasta me pediu uma senha para ser acessada.
.
–Yume? – Minha mãe me chamou. Saquei o pendrive pendurado em um cordão em meu pescoço. Copiei a pasta para dentro dele. Senha.
.
Digitei “Alice” novamente. A transferência iniciou. Minha mãe me chamou novamente, mais perto dessa vez. Entrei em desespero, encarando a barra verde da transferência se movendo lentamente.
.
Era impressão minha, ou meu pai tinha obsessão pelo Caso Alice?
.
–Yume? – Minha mãe parou à porta. Viu-me escorada na cama, o ar-condicionado ligado, com um livro aberto no colo. O computador do meu pai estava fechado, na mesa de cabeceira onde estive antes. – Você pode me ajudar com o jantar? – Acenei, como se nada tivesse acontecido, e apanhei o controle de cima do notebook, desligando o ar-condicionado que só havia no quarto de meus pais. Junto com o controle, disfarçadamente eu puxei o pendrive, ainda grudado à porta USB.
.
Ajudei minha mãe a fazer a janta, evitando desesperadamente o olhar do meu pai, mas ele estava distraído com a TV, e acho que não notou que eu escondia algo dele. Jantamos em silêncio, como sempre ocorria, já que o noticiário passava geralmente na hora em que jantávamos, e meu pai queria ouvir. Tirei a louça da mesa como sempre acontecia, e pedi licença pra me retirar ao meu quarto. Minha mãe concedeu-a, mas meu pai ergueu os olhos pra mim, por cima dos óculos, e me chamou, quando eu me virava;
.
–Yume? – Sua voz séria me gelou o sangue. Voltei-me e encarei-o. – Durma bem, minha filha. – Acenei.
.
–Claro. O senhor também, papai. – Seus olhos retornaram para a tela plana da TV, e eu me lembrei de respirar. Virei-me, e subi quase correndo para o quarto.
.
Esperei no escuro, escondida sob as cobertas, até ouvir barulhos no corredor, e esperei mais um pouco, até que os barulhos cessaram, comprovando-me que meus pais tinham ido dormir. Levantei-me, sentindo o frio do porcelanato nos pés descalços.
.
A chuva começou do lado de fora, bem quando eu apanhei meu notebook de cima da escrivaninha, levando-o para a cama. Escondi-me embaixo das cobertas, muito embora fosse muito calor, e liguei o computador. O som que ele fazia me parecia um rugido, e meu coração ia sair pela boca. Puxei o pendrive e conectei-o à porta USB. A luz da tela do notebook me cegou, e eu tive de diminuir o brilho.
.
Acessei o pendrive, e abri a pasta. A senha me foi solicitada, e eu digitei-a novamente: “Alice”. Meus dedos passeando agilmente sobre as teclas do notebook pareciam agora tiros de metralhadora, tamanho o silêncio naquela casa. Conduzi o mouse pelo touchpad do notebook, e abri a pasta chamada A1. Haviam 12 fotografias.
.
Era uma rua. Estava escuro, mas com as luzes dos postes eu podia ver que era no Japão. Eu não me lembrava de conhecer aquele lugar. Mas, tirando o fato de estar escuro, não havia nada de estranho naquela foto. Passei adiante. A mesma rua escura, mas agora, sob uma das luzes do poste, uma figura parecia caminhar. Era uma mulher, eu percebi. Voltei para a foto anterior e vi a 
.
08/22/1999 04:34:16
.
Passei novamente adiante:
.
08/22/1999 04:36:22
.
Fui para a terceira foto. Agora o fotógrafo estava mais perto, e a figura que passara sobre uma lâmpada na foto anterior era uma mulher.
.
08/22/199904:40:15
.
Comecei a passar as fotos, percebendo um espaço de minutos entre cada uma delas.
.
Na quarta foto, uma mão agarrara o braço da mulher que andava. Ela estava se virando.
.
Na quinta, a mulher estava com uma expressão de pânico.
.
Na sexta, havia uma faca emergindo de seu ombro.
.
Na sétima, seu braço foi arrancado.
.
Na oitava, ela não mais aparecia, e o lugar estava mudando.
.
Na nona, avançávamos pela rua.
.
Na décima, estávamos em um bosque, e o lapso temporal entre a nona e a décima foto era maior, quase meia hora. A escuridão era quase total, mas pelo infravermelho da câmera ainda se percebia o que acontecia. A mulher estava caída no chão, e parecia inconsciente, ou morta. O braço que desaparecera na sétima foto não retornara mais.
.
Na décima primeira, a mulher não tinha mais suas pernas, cabeça e o braço que sobrara. Tudo o que restava era o tronco. Uma mão com uma faca de açougueiro era percebida no canto da foto.
.
Na décima segunda, o sol devia estar quase surgindo, porque se viam suas nuances no lugar. Tínha-se uma visão mais ampla do local.
.
Havia um braço em uma árvore, e uma perna cravada em um galho. A cabeça estava no ponto mais alto, sobre uma bifurcação de galhos. Os olhos grotescamente abertos, a boca escancarada em uma expressão de pânico.
.
Na décima terceira foto havia uma carta ante o cenário mencionado antes. Escrito com sangue, a palavra “Alice”.
.
Na décima segunda fotografia, um close na cabeça decepada. Sobre os lábios azulados, a carta Alice da foto anterior.
.
Minha mão tremia quando eu fechei a pasta. Devagar, abri a pasta chamada A2.
.
Na primeira foto, datada de 2001, via-se um bar meio vazio. Haviam apenas algumas últimas pessoas, como se fosse muito tarde. A hora no canto da foto confirmou:
.
09/25/2001 01:36:51
.
Na foto havia um palco, e uma banda tocava. Havia também um casal em uma mesa, de cabeças bem juntas, e dois homens, em mesas separadas.
.
A segunda foto, duas horas mais tarde, era na frente de um prédio pequeno e meio pobre. Também era no Japão.
.
A terceira foto era dentro de um elevador, e o lapso temporal entre ela e a foto anterior era de menos de um minuto.
.
A quarta foto mostrava um rapaz sorridente abrindo a porta de um apartamento.
.
A quinta foto mostrava uma mão segurando uma arma, e havia sangue na parede ao fundo da foto.
.
A sexta foto mostrava um lugar parecido com um frigorífico ou câmara fria. O corpo do rapaz sorridente estava jogado sobre uma mesa cirúrgica. No meio de sua testa tinha um buraco, e o sangue já coagulara, formando um círculo perfeito. A data da foto mostrava que um dia havia passado desde a foto anterior.
.
A sétima foto mostrava o mesmo rapaz, ou o que parecia o mesmo rapaz. O rosto continuava do mesmo modo, mas a garganta foi aberta e escancarada de maneira medonha. Os braços tinham sido arrancados, e as pernas também.
.
Na oitava foto, alguns minutos depois, a garganta tinha sido costurada dantescamente.
.
Na nona foto estávamos de volta ao bar anterior, que agora se encontrava vazio. Aparentemente era dia, ou de manhã cedo, do lado de fora, uma vez que havia sol nas janelas.
.
Na décima foto o corpo já havia sido espalhado pelas mesas. Na mesa do meio o torso, com a cabeça, foi colocado, e os braços foram cruzados sobre o peito. Aquelas coisas estranhas que eu não conhecia, mas que tinham especial relevo na foto, devia ser suas cordas vocais, colocadas entre suas mãos. Junto dessas coisas, estava sua carta Alice.
.
Não consegui continuar. Fechei as pastas e bati o notebook ao fechá-lo.
.
Não dormi naquela noite.
.
Meu pai era o assassino procurado pelo Caso Alice?!
.
Mas… Ele também não era o promotor que cuidava desse caso?!
.
Afinal, o que ele era?
.
Aquilo remoeu em minha mente, junto com as imagens, durante todo o período escuro. Levantei-me de manhã e rumei para a cozinha. Meu pai já havia saído, mas minha mãe recém arrumava o café da manhã para nós duas. Ela ergueu os olhos com um sorriso para me dar bom dia, mas seu sorriso desapareceu.
.
–Céus, Yume! Você está pálida! Está bem? – Acenei vagamente, e sentei-me à mesa. Minha mãe me olhou, preocupada, e testou minha temperatura com as costas da mão, mas eu com certeza não tinha febre. Ainda me encarando, ela preparou um pão com manteiga para mim, e colocou-o à minha frente. Mirei-o aleatoriamente.
.
Só prestei atenção nele quando, de repente, ele se tornou uma carta de baralho. Empurrei o pão para longe, e minha mãe suspirou.
.
–Querida, você precisa comer…
.
–Não. – Balancei a cabeça. Ela empurrou para mim um chá escuro. Peguei-o e bebi um gole. O gosto era estranho. Quando olhei novamente, o chá tinha se transformado em sangue. Uma xícara de sangue. Gritei, jogando a xícara para o lado, e vomitei. Minha mãe saltou, amparando minha cabeça, prestativa.
.
–Ah, Yume… Você está doente. Não precisa ir à escola hoje. Fique em casa e se recupere. Vou ligar para o seu pai…
.
–NÃO! – Eu ainda não havia decidido se meu pai era bom ou era ruim. Preferia não arriscar. – Não… Tire papai do trabalho…
.
–Não se preocupe. Seu pai está de folga hoje. É algum feriado judiciário. Vou ligar para ele, e ele levará você a um médico ou hospital, certo? – Antes mesmo que eu pudesse objetar, minha mãe já havia partido. Fiquei sentada à mesa, pálida como uma morta, tremendo da cabeça aos pés. Se meu pai era o assassino…
.
Não tardou mais que meia hora até que ele chegasse. Mostrou-se um pai zeloso, sentou-se comigo à mesa como se nada tivesse acontecido, e me perguntou como eu me sentia.
.
–Bem. – Menti.
.
–Ora, Yume. Você vomitou. Querido, você se importaria em levar Yume a um médico? – Ele concordou com um aceno, e levantou-se. Mandou-me pentear o cabelo, ele me esperaria no carro. Disse para minha mãe que fosse junto comigo, afinal, eu poderia cair na escada…
.
Tentei convencê-la de todas as maneiras a me acompanhar. Acho que eu cheguei a chorar, mas sou incapaz de lembrar isso com clareza. Naquele instante tudo parecia coberto por uma nuvem ou por névoa. Talvez eu realmente estivesse doente. Minha mãe me guiou escada abaixo novamente, com a mão no meu ombro, e fechou a porta do carro para mim.
.
Acenou, enquanto meu pai se afastava com o carro. Eu engoli em seco e acenei de volta. Estava tudo bem. Era meu pai. Era só o meu pai.
.
–Yume. – Ele me chamou, como se viesse fazendo aquilo por um bom tempo. – Como você está se sentindo?
.
–Ah… – Respondi, e acenei- Bem, papai. Estou bem.
.
–Ótimo. Então você vê problemas em pararmos em um lugar antes de seguirmos para o médico?
.
Em algum lugar? EM QUE LUGAR?! Acenei, negando, sem força ou coragem para falar. Ele não podia saber que eu vira as fotos.
.
Meu pai seguiu pela rua e dobrou uma esquina. Parou em frente ao prédio coberto por ladrilhos. A placa com letras em relevo dizia “PROMOTORIA PÚBLICA”. Achei que meu estômago ia derreter de alívio. Não tardou mais que alguns minutos pra que ele voltasse, guardando algo no bolso de trás da calça e carregando uma maleta executiva preta. Abriu a porta de trás do carro e colocou a maleta lá, para então entrar no carro e fechar a porta sem cerimônias.
.
–Agora é só mais um lugarzinho, e então iremos ficar bem, certo, minha filha? – Ele disse, e sorriu, colocando a mão sobre meus cabelos.
.
O toque fez minha espinha se arrepiar. Mas… Ele só estava sendo gentil, não é?
.
É claro.
.
Meu pai dirigiu longamente, e atravessamos a cidade, indo ao extremo oposto do hospital. Eu mirei o homem ao meu lado. Ele parecia o mesmo de sempre, com sua expressão anuviada e os olhos cinzentos concentrados no caminho, por trás dos óculos.
.
Céus, era meu pai. Ele devia ter conseguido aquelas fotografias durante a investigação. Como eu pudera, sequer por um instante, pensar que ele era o assassino do caso Alice?
.
–Yume? – Sua voz me sobressaltou. – Como você está se sentindo? - Um pai zeloso por sua única filha. Como eu pude duvidar dele? Sua voz parecia levemente exaltada, mas talvez aquilo fosse apenas minha imaginação. – Yume, apanhe, no bolso da maleta, um comprimido. Você vai se sentir melhor. – Ele disse, indicando uma maleta de couro no banco de trás do automóvel. Onde eu pudera ver em meu pai o maníaco, louco e homicida de um caso que a Crypton transformou em uma Creepy Pasta. Anuí e me virei no banco. Enfiei a mão no bolso da maleta e tateei lá dentro. Achei uma dezena de cartelas de remédio, e alteei uma sobrancelha para meu pai. Ele riu, bem humorado. – Desculpe, meu querido sonho. Andei doente e tomei um calhamaço de remédios. O que você procura é essa drágea pequena e azul. – Faltavam já cinco drágeas. Destaquei a sexta e, como era pequeninha, engoli-a a seco.
.
Meu pai estendeu um olhar pra mim, e eu ergui o polegar, sinalizando que estava legal. Ele, então, dirigiu mais um tempo, em silêncio.
.
Foram necessários uns quinze minutos para as coisas começarem a acontecer…
.
Minha língua ficou com uma sensação pastosa e estranha, e eu tentei avisar meu pai, mas apenas um som gutural foi emitido. Escorei a cabeça no banco. Sentia-me mal novamente. A minha visão tinha laterais embaçadas, como um flashback mal feito. Tentei erguer a mão para o botão do vidro, mas não consegui me mover. No entanto, eu via que estávamos andando, e via as mãos de meu pai tamborilando no volante, parecendo impacientes. Achei que ele tinha percebido que eu não estava bem, até que ouvi-o cantarolar alegremente.
.
Demorei apenas um segundo para reconhecer a música.
.
Hitobashira Alice. O Sacrifício Humano de Alice.
.
Meu pai estava cantando Vocaloid.
.
A música soava muito errada na voz dele. E aquilo trouxe de volta o meu pavor.
.
Quando o carro parou, eu não cabia em mim de desespero. Não conseguia me mover, não conseguia falar nem gritar, nem emitir qualquer som que parecesse inteligível. Mas eu via, e eu sentia.
.
Estávamos em frente a uma grande catedral, ou Igreja, nunca tive a capacidade de diferenciá-las. Meu pai saiu do carro, abriu a porta traseira e apanhou sua maleta negra. Senti seus olhos cravados em mim. Aí a porta tornou a ser fechada, e eu não soube dele por quase vinte minutos. Tentei desesperadamente retomar o controle do meu corpo neste entretempo, em vão.
.
Quando meu pai voltou, abriu a porta do caroneiro e me ergueu no colo, com um gemido.
.
–Espero que esteja pronta, meu pequeno sonho. Eu te sonhei por muitos anos, e hoje tudo vai terminar.
.
Ele me carregou para dentro da igreja, e me colocou sobre o altar. Organizou meu corpo como quis, e eu senti minhas mãos serem postas sobre meu peito. Minhas pernas estavam eretas. Eu sentia a madeira contra minhas costas. Porque eu não conseguia me mover?!
.
Eu percebia o movimento do meu pai, não muito longe, mas não conseguia vê-lo. De repente ele apareceu em meu campo de visão. Havia uma badana plástica em sua testa, e nela havia uma pequena câmera acoplada.
.
–Vamos brincar agora, meu querido sonho, e você é meu curinga. – Ele falava, e empurrou-me, colocando-me sentada. Um apoio foi posto sob minhas costas, e sustentou meu corpo imóvel. – Minha queria Alice do Curinga – Senti-o puxando delicadamente meus cabelos, penteando-os, e achei aquilo estranho, Tentei falar novamente, em vão. Percebi que ele amarrava meus cabelos e, pelo tempo que operou, senti que ele prendeu as madeixas em três partes, três rabos bem apertados: Dois dos lados, um atrás.
.
O que raios aquele maluco estava fazendo? Meu pai continuava fora do meu campo de visão, falando sem parar sobre sonhos, sobre Alice, sobre curinga.
.
Só entendi o que ele queria dizer quando, de repente, ele surgiu no meu campo de visão portando uma faca grande. Senti novamente o desespero bater à porta e tentei me soltar, mover. FUGIR!
.
Tudo em vão.
.
Sua mão grande amparou minhas costas e me afastou levemente daquele que me amparava. Ele separou minhas pernas e enfiou embaixo de mim uma espécie de banco regulável, que ele arrumou em um ângulo de 140º. Depois, ele escorou meu peito naquela superfície e eu fiquei ali, meio inclinada, dobrada em mim mesma.
.
–O desespero em seus olhos é algo tão, tão maravilhoso, meu querido sonho, minha amada Alice da Morte… – Ele disse-me, apanhando novamente a faca. Seus dedos abriram minha boca, e a lâmina da faca foi posta entre meus dentes. Eu podia sentir a frieza do aço contra os cantos de meus lábios. Senti uma lágrima cair de meus olhos.
.
Depois, quando ele puxou a faca com força, rompendo a pele de meu rosto em um sorriso macabro de Joker, eu não senti mais nada.
.
Devo ter acordado talvez alguns minutos depois. A dor que eu sentia era excruciante, e turvava meus sentidos. Eu parecia inebriada de dor.
.
Meus olhos demoraram a se fixar naquela pessoa que estava tão perto de mim. Lembrei devagar se tratar de meu pai, enquanto suas mãos trabalhavam em meu rosto, e ele permanecia com o cenho franzido. Depois, quando via a poça de sangue logo abaixo de mim, lembrei o que ocorrera.
.
–Que bom que você ainda está comigo, minha queria Alice do Curinga. – Disse aquele homem que agora me parecia tão estranho. – Você está quase pronta. Veja. Sua carta de Alice está pronta aqui… – O homem largou um instrumento estranho, que parecia uma agulha encurvada. Apanhou, então, uma carta de baralho. A palavra “Alice” estava escrita com tinta vermelha: meu sangue. – Agora só falta o “Gran-Finale”. – Ele rumou para fora do meu campo de visão, e retornou segundos depois com uma seringa e um tubo pequeno e estranho. Ele encheu a seringa e reservou-a. Seu olhar, então, voltou para mim. Minha dor era tamanha que eu não conseguia chorar ou me preocupar com a morte que agora parecia tão iminente. Não liguei quando ele me colocou deitada. Mas confesso que fiquei surpresa (ou tão surpresa quando poderia ficar no estado de obnubilação em que me encontrava) quando ele sacou o celular e ligou para a polícia, anunciando, em uma voz agitada, um homicídio dantesco prestes a ocorrer naquela igreja. Por fim, praticamente em um único movimento, ele desligou, sacou a seringa e cravou-a no próprio braço, esvaziando-a.
.
Depois, sacou novamente a faca, com igual violência, e baixou-a contra meu corpo, arrastando-a com igual furor até a base de meu abdome.
.
Caiu ao lado do altar, sobre o meu sangue, que empossava no chão.
.
Houve uma batida violenta na porta, e a polícia adentrou o lugar, gritando,. Mas já era tarde. Eu já estava morta, e meu pai e assassino ia para o mesmo caminho, contorcendo-se e agonizando no chão.
.
Eu fui a próxima Alice. Fui a Alice fora da música, a quinta Alice.
.
Eu fui a Alice do Coringa. Fui a Alice da Morte. A Alice Final.


Desculpem a falta de postagem.. É que estava sem ideia, até ver essa maravilhosa creepy pasta :3 *Sem ideia do que falar no começo da postagem*

4 comentários:

  1. ~Mas essa minha net tá de sacanagem comigo! Já é a terceira vez que sabagaça buga e adeus meu comentário Ç.Ç~
    Enfim, kayhhhhh vocaloid >///////< eu amo essa música, uma das minhas favoritas, amo principalmente a parte da Rin e Len, eu adoro eles e shippo esses dois imensamente *U*. Pena que aquele ser sensualizador do Kamui num aparece aí Ç.Ç
    Sobre a creepy pasta, confesso que num fazia ideia do que se tratava, então tive que consultar o titio google para ver o que era, cheguei até pensar que fosse uma fic que você escreveu, porém no final da postagem você disse que viu essa creepy pasta, então cê achou isso vagando na internet!?
    Eu adorei a história, muito boa, agoniante e foda XD, daria um belo de um anime u.u, aliás, boa parte das músicas e coisas baseadas nos vocaloids dariam ótimos animes!
    Kiss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu também gostei muito. Eu estava procurando jogos para fazer game play e achei essa Creepy e me apaixonei e faz um sentido imeeeeenso.
      Ultimamente a internet está uma porcaria.. Estou tentando entrar no meu facebook e nau vai -.- Esse negossio ta de sacanagem comigo, só pode.
      Seria ótimo se fizessem em anime, MAAAAS por enquanto estou na espera, ainda acho que farão o anime deles, tenho certeza *-*

      Excluir
  2. Adorei o post linda :D
    Beijos :*

    http://palomamirandav.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

[ATENÇÃO]
Aceitamos afiliações
Não fazemos layouts free por encomenda
Não aceitamos "seguindo, segue de volta?"
Não xingue ninguém aqui.